Sempre achei curiosa e perspicaz a opinião de Vergílio Ferreira segundo a qual , na cidade de São Paulo, todos parecem andar pelas ruas como que entorpecidos, dopados. O grande romancista e ensaísta português não gostou de São Paulo, quando aqui esteve. Em Conta-corrente ( e não Contra-corrente, como vi há algum tempo em um livro especializado), diário publicado em vários volumes, o autor compara o Rio de Janeiro a São Paulo. A visita ocorreu, parece, na década de 80. Vê o Rio como uma cidade iluminada, sempre com o sol refletindo nos edifícios modernos. Já São Paulo é mostrada como cinzenta, esquisita. A opinião é estranha porque contrastante com a mundividência do autor: são romances existencialistas, nos quais, via de regra, o pessimismo é agudo e o indivíduo se vê perdido, só, em um mundo sem sentido. O caos paulistano deveria, portanto, corroborar seu olhar sobre as coisas. Mas ocorre o oposto. É a cidade iluminada que lhe serve de referência, e não o espaço que, graças ao caos, levaria o indivíduo à introspecção existencial. Talvez haja uma correlação entre sua visão mais objetiva da realidade , reservada para seu diário, e uma visão subjetiva ( e sombria), própria de seus romances.
Entre os brasileiros, claro: Machado de Assis. O psicologismo de seus narradores não os impedem de tornar o espaço carioca imprescindível para a compreensão da Obra. A presença do mar em Dom Casmurro, por exemplo, é exporádica mas intensa, poética, capital : os olhos “de ressaca” de Capitu; a morte de Escobar, tragado pelas ondas reais e metafóricas ( o olhar de Capitu).
Em Lima Barreto, a referência ao espaço do subúrbio carioca de início de século XX é documento humano precípuo a historiadores e geógrafos que queiram estudar a topografia da “cidade maravilhosa”. Sem falar na São Paulo desvairada do nosso Mário de Andrade. ( mudar)
As cidades sempre foram personagens de interesse; lembro de Avalovara, de Osman Lins, romance no qual o protagonista, um intelectual pernambucano (uma clara referência autobiográfica), é um viandante que estabelece paralelos entre três mulheres e algumas cidades. Roos é uma holandesa que viaja por várias cidade européias, com o narrador , jovem, apaixonado e em seu encalço; Cecília é, em tempo posterior, uma recifence, conhecida da Gorda ( mãe do protagonista, ex-prostituta), que no transcorrer do relacionamento com Abel ( o narrador) , revela-se um ser andrógino. Mas é em São Paulo que o protagonista se depara com sua amante definitiva, que o levará à tragédia final. Esta amante , pertencente a uma família paulistana tradicional, mas decadente, é criada no edifício Martinelli. Sua mãe é um ser fútil, preocupada com as aparências. Seu pai, portador de uma série de deficiências. A amante paulistana de Abel é casada, sabemos no transcorrer da narrativa, com Olavo Hayano, um ricaço, também de família tradicional e, parece, ligado aos militares. Desde o início de Avalovara a narrativa é entrecortada pele relação sexual que se estabelece entre Abel e sua amante que é representada por um símbolo em toda a obra. A relação chega ao ápice quando, ao final da obra, Olavo flagra os amantes em sua própria casa e os mata com disparos de um revólver. A cidade de São Paulo assume um caráter simbólico, quase mítico. Há algumas citações que introduzem a obra e tentam justificar sua compexidade. Em uma delas, de Mircea Eliade, há a referência à “cosmogonia”:
“Uma criação implica superabundância de realidade, ou por outras palavras, uma irrupção do sagrado no mundo. segue-se daí que toda construção ou fabricação tenha como modelo exemplar a cosmogonia”
Na literatura de língua estrangeira as cidades também incorporam organicidade ( com o perdão do trocadilho), como seres vivos. Sem dúvida é espantoso o conhecimento de um Balzac sobre Paris e outras cidades francesas, desde logradouros até costumes de classes sociais diversas. Dickens, no mesmo período, não deixa a dever em observações argutas sobre Londres sofrendo os efeitos da Revolução Industrial. Em Um Conto de duas cidades, o romancista apresenta Londres e Paris como metáforas de avanços e retrocessos vinculados às conseqüências da Revolução Francesa.
E há também as cidades que não representam apenas metáforas, mas que estão definitivamente incorporadas à poética do escritor. É o caso da Dublin de Ulisses, do irlandês James Joyce, ou da Buenos Aires mítica que percorre vários contos, ensaios e poemas de Jorge Luís Borges. Em Proust, as várias cidades , desde a Combray provinciana até o grand monde parisiense; e, no francês, é inegável o aspecto visual, cinematográfico mesmo, de suas descrições, a ponto de fixar-se na memória do leitor imagens geradas pela leitura do À la recherche du temps perdu . Sem falar na São Paulo desvairada do nosso Mário de Andrade. Ou do personagem central de Inventário do Tempo, de Michel Butor, em que toda uma topografia é criada por meio de palavras, o que torna a cidade de sonho quase palpável.
Nas melhores novelas policiais, o espaço urbano é essencial. A Paris de Maigret, com seus vários matizes (Otto Maria Carpeaux diz que Simenon é insuperável na caracterização da “meteorologia”, no clima entendido como efeito físico) ; a Londres enevoada de Conan Doyle; a Nova Iorque de Lawrence Block; o Rio de Janeiro de Rubem Fonseca e de Luís Alfredo Garcia-Roza..
E, talvez o exemplo mais dramático, que dizer da Praga de Kafka ? Tão real e ao mesmo tempo distorcida por seu expressionismo agônico, Tão particular e simultaneamente tão universal e atemporal…
E ainda dizem que Literatura é pura evasão… Quão realista deve ser um escritor para sair do ramerrão do dia-a-dia e, transcendendo, vislumbrar criticamente e com certo phatos seu local de origem e convivência!